Confronto entre policiais de SP e MG envolvia negócio ilegal e dinheiro falsificado
Rogério Pagnan e Flávia Faria | Folhapress  23/10/2018 - 07:14

COMPARTILHE

O confronto entre policiais de São Paulo e de Minas Gerais que deixou um morto e dois feridos no interior mineiro pode ter ocorrido quando os paulistas descobriram ter sido enganados em um negócio ilegal que envolvia cerca de R$ 14 milhões.

A avaliação está em documento da Justiça mineira produzido em audiência realizada neste domingo (21), quando foi convertida para prisão preventiva o flagrante de quatro policiais civis paulistas e de dois empresários envolvidos diretamente no caso.

O confronto, ainda com motivos nebulosos, ocorreu na tarde da última sexta (19) em um prédio anexo ao Hospital Monte Sinai, em Juiz de Fora (MG). Durante a ação, um policial mineiro de 39 anos foi morto, e dois empresários também foram baleados. 

O empresário mineiro Antonio Vilela levou um tiro no pé. Ele teve alta do hospital na noite de domingo e está preso no Centro de Remanejamento do Sistema Prisional de Juiz de Fora. Já o paulista Jerônimo da Silva Leal Júnior, ferido no abdômen, foi levado a um hospital da região, onde está internado em estado grave. 

"Ao que se presume, o chamado de 'desacerto' [entre os policiais] ocorreu depois que os 'negociantes' de São Paulo detectaram a falsidade [das notas em reais], reforçando o argumento de que precisavam mesmo de segurança e proteção", diz documento da Justiça mineira.

Ainda segundo as investigações preliminares levadas à audiência judicial, os policiais civis de São Paulo estariam na cidade para realizar uma "escolta vip" para o doleiro Flávio de Souza Guimarães. 

Cada policial, segundo apuração até aqui, receberia R$ 1.500 pelo trabalho.

O doleiro saiu de São Paulo em direção a Minas em um avião particular para realizar um "negócio milionário". No voo, estava acompanhado de Rodrigo Castro Salgado da Costa, delegado da polícia de São Paulo, dos empresários Roberto Uyvare Júnior e Jerônimo da Silva Leal Júnior e de um outro homem identificado apenas como Mário.

Uyvare Júnior, segundo a Justiça mineira, possui empresas na França, na Espanha e no Brasil, "não se sabendo ainda o ramo". Já Leal Júnior seria dono de empresa de segurança em São Paulo -e irmão do investigador Jorge Alexandre Barbosa de Miranda.

Guimarães está sendo ouvido na tarde desta segunda (22) pela Corregedoria e, segundo a Folha de S.Paulo apurou, nega que tenha levado dólares para Minas para negociar.

O investigador irmão de Leal Júnior é um dos quatro policiais presos após o confronto em Minas. Já Jerônimo está internado em estado grave, após ter sido baleado na ação. Ele é apontado como o autor dos disparos que mataram o investigador mineiro Rodrigo Francisco, mas a Justiça levantou dúvidas sobre essa versão dos fatos.

Além do investigador Jorge, foram de carro a Minas outros sete policiais, entre eles o delegado Bruno Martins Magalhães Alves, todos "fortemente armados" com pistolas 380, .40 e 45. Eles também levavam rádios e coletes a prova de balas.

No lobby de um hotel, segundo indica a investigação até aqui, o doleiro Flávio Guimarães, o empresário Uyvare Júnior e o homem identificado como Mário passaram a negociar com o empresário Antônio Vilela, que estava na companhia de homem não identificado.

Na sequência, os empresários paulistas e mineiros seguiram para o estacionamento do Hospital Monte Sinai. Eles foram acompanhados por uma parte dos policiais de São Paulo, que encontraram quatro policiais mineiros na entrada do local.

O chamado "desacerto", do qual ainda não se tem todos os detalhes, ocorreu nesse momento. Saíram feridos os empresários Jerônimo e Antônio Vilela, e morto o investigador Rodrigo Francisco, da polícia mineira.

Quatro policiais paulistas foram presos. Os empresários Uvayre e Guimarães e os dois homens não identificados fugiram do local.

Inicialmente, os policiais mineiros haviam dito que chegaram ao estacionamento para averiguar o ocorrido. Essa versão, contudo, foi contestada pelo Ministério Público, uma vez que os quatro foram fotografados na entrada do hotel onde houve a negociação inicial. Segundo a Justiça, eles também não faziam parte da mesma equipe nem teriam nenhuma razão imediata para estarem juntos naquele momento.

A suspeita é que, na verdade, eles faziam a escolta do mineiro Antônio Vilela.

No momento do tiroteio, segundo a investigação, quatro policiais paulistas estavam de retorno a São Paulo e, assim, não teriam participação direta no crime. Em razão disso, suas prisões não foram decretadas pela Justiça de Minas.

Esses quatro policiais foram ouvidos no domingo (21) na Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo. Um deles afirmou que foi contratado para fazer a escolta de três empresários em Juiz de Fora, mas disse que não sabia do que se tratava a negociação nem chegou a ter contato com eles, apenas viu fotos.

Os quatro foram destinados a serviços internos na Polícia Civil.

Segundo a Secretaria da Segurança, delegados da capital e Corregedoria estão em Juiz de Fora para acompanhar apurar todas as circunstâncias do caso e verificar o que os agentes faziam na cidade fora do horário de trabalho. 

"Comprovados desvios de conduta, os policiais envolvidos responderão administrativa e criminalmente, de acordo com os atos praticados."

 

 






Seja visto por centenas de pessoas diariamente
Cadastre-se agora mesmo em nosso guia comercial, planos grátis e premium.